Santo Afonso, o Doutor de Maria



Muitos Santos Doutores escreveram sobre Maria Santíssima, cantaram os louvores e glórias da Mãe de Deus. São Bernardo não foi chamado a Cítara da Virgem? Que belos pensamentos e cheios de unção, os que saíram da pena do Seráfico doutor São Boaventura ao escrever sobre Maria. Que riqueza e facúndia de estilo, e que sublimidade, a de um Santo Agostinho nos louvores da Mãe Celeste! Quanta joia preciosa e bela na literatura patrística, nos escritos dos Santos Doutores em torno deste inesgotável tema: as glórias de Maria!

Pois, não é exagero nem ousadia afirmar: Santo Afonso a todos excedeu nas suas Glórias de Maria. Não pelo seu estilo, ou arroubos de eloquência, ou sublimidade e sutileza de ideias. Simplesmente por isto: foi o Santo Doutor, abelha diligentíssima, que de modo genial sintetizou e colheu na Tradição e nas escolas teológicas e na literatura religiosa de todas as épocas, tudo quanto se escreveu de mais belo, de mais útil, de mais precioso e consolador sobre as glórias e a devoção de Maria Santíssima. Podemos chamá-lo o Doutor de Maria.

A Mariologia alfonsiana é de uma segurança doutrinária e de uma beleza inexcedíveis. Santo Afonso recebeu do céu o dom de escrever sobre Maria com uma unção e um encanto e uma sublime singeleza, se assim me posso exprimir, como nenhum outro Doutor ou escritor sacro. Que gênio o deste Santo admirável! Tudo quanto à tradição nos legou de mais belo, edificante e consolador, através de tantos séculos, Afonso sintetizou nas Glórias de Maria. Naquele estilo singelo, naquela simplicidade tocante e quase ingênua de exemplos e comparações, meu Deus, que mundo, que oceano de ideais e que consoladores e confortantes pensamentos! Não tenho medo de contestação na história da Mariologia não há melhor nem maior doutor de Maria que Santo Afonso.

Das Glórias de Maria escreve o Pe. Geraldo Pi­res, Redentorista e tradutor desta joia mariana: “O livro de Santo Afonso é riquíssimo em citações”.

É com palavras de outros que descreve a grande misericórdia, o extraordinário poder de Maria. Como ele mesmo confessa, passou dez anos colhendo citações nos livros de numerosos autores, tirando deles os trechos mais belos, mais tocantes, mais convincentes sobre a Mãe de Deus.

Formou assim um colar de pérolas que se estende pelas páginas afora da obra. Reuniu as vozes dos Santos Padres, dispersas pelos escritos, e delas fez uma sinfonia em honra da Virgem. Santo Afonso vive baleando no caudal da tradição e por isso há tanto ouro nas citações que faz. Cita com agudez de juízo e com fineza de inteligência. Recolhe, mas como operosa abelha, e apresenta-nos favos saborosos.

O estilo de Santo Afonso tem mais uma particularidade. É simples, singelo, humilde. O sábio teólogo, o afamado advogado, o admirável pregador, estão ocultos na modéstia da frase. O santo nota-se, a cada passo esconde a luz da sua inteligência sob a repetição de frases simples.

Por isso, também seu estilo fala ao coração. É cordial, é recordativo de toda a pessoa do Santo. Afonso repete-se, repete sentenças sobre o poder, sobre a misericórdia de Maria. Que fazer? Nisso está o “tema iterativo” do seu hino em honra da excelsa Mãe de Deus.




Já velho e cansado, Afonso fez sem o querer o melhor elogio da sua obra. Um dia pediu ao Irmão leigo que o servia, que lhe lesse algum livro sobre Nossa Senhora. O Irmão pôs-se a ler as Glórias de Maria. O Santo o interrompeu logo depois admirado e comovido: “Meu Irmão, quem teria escrito um livro deste, tão belo, sobre as glórias de Maria?”.

O Irmão simplesmente leu o nome do autor: Afonso de Ligório. Muito desapontado o Santo mudou logo de assunto. O elogio, porém estava feito e, espontaneamente, partido do coração que tanto amava à Virgem Santíssima. Realmente, Glórias de Maria é um livro incomparável, a mais bela e rica joia da Mariologia, porque é um tesouro de citações e de doutrinas consoladoras. Santo Afonso foi o pregador da Mediação de Maria, da Assunção gloriosa, da Imaculada Conceição, muito tempo ante proclamada esta, como dogma de fé. A Mariologia Alfonsiana é segura e muitíssimo consoladora.

O que encanta em Santo Afonso é a unção, é a beleza das suas orações. Que orações verdadeiramente seráficas! Um Serafim não poderia rezar a Maria com expressões mais candentes e com maior ternura.

A preocupação deste Doutor útil, na expressão do Pe. Desurmoto é dar às almas meios seguros de salvação. — Nenhum meio acha melhor Afonso que o recurso a Maria. Na vida espiritual o ascetismo alfonsiano se baseia em cinco princípios muito seguros: A lei da oração: “quem reza se salva quem não reza se condena”; a lei da Divina Misericórdia, a lei do culto de Maria, a lei da perseverança ou zelo pela perseverança final, e a fuga das ocasiões.

Quanto à devoção a Maria, o Santo Doutor parece esgotar todos os recursos do seu gênio e do seu amor para traduzir de mil formas quanto é ela importante e necessária a todos os cristãos.

“Ó Maria, bem sabeis quanto tenho buscado exaltar-vos sempre e em toda parte, em público e em particular, a todos insinuando a doce e salutar devoção para convosco. E tudo isso no empenho de ver-vos amada pelo mundo inteiro, como o mereceis. Assim procedo para também de algum modo mostrar meu agradecimento pelos insignes benefícios que a mim tendes dispensado.

Ó minha caríssima Rainha, espero que esta minha oferta — inferior embora ao vosso merecimento — seja benignamente acolhida por vosso sempre grato coração, sendo, como é, um obséquio de amor.

Estendei, portanto, essa tão benigna mão que me libertou do mundo e do inferno. Aceitai este livro e protegei-o como propriedade vossa. Mas ficai cientes que por este pequeno obséquio exijo uma recompensa: a de amar-vos doravante mais do que pelo passado, e que cada um daqueles, em cujas mãos for parar este livro, fique abrasado no vosso amor. Que nele de repente se aumente o desejo de amar-vos e de amada vos ver por todo o mundo. Que de todo o coração se ocupe em espalhar e promover vossos louvores e a confiança em vossa poderosíssima intercessão. Assim espero. Assim seja.

Vosso amantíssimo, embora indigníssimo servo”

Autor: Mons. Ascânio Brandão

Fonte: rumoasantidade.com.br

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