"Todo semeador semeia contra o presente"

Esta frase do poeta português Miguel Torga (1907-1995) certamente tem algo a dizer para nossa época, pós-moderna para alguns, contemporânea para outros, mas que tem como elemento fundante a urgência do “agora” nos diversos campos e relações estabelecidas pelos homens e mulheres deste tempo. Vivemos a corrida pelo instante que propicia mais prazer e mais gozo, não nos interessa a perspectiva da espera, já que estamos sendo educados para buscarmos a realização de nossos desejos e anseios no “agora” de nossa existência, não nos importando os custos e consequências desta procura sempre mais frenética e invasiva. Hoje, é comum verificarmos que muitas pessoas se comportam como se fossem crianças mimadas, incapazes de entenderem que nem sempre querer é poder, como reza nossa sabedoria popular. São formados não para a espera, mas se comportam como reis, exigindo a satisfação imediata de seu querer.

 

Junto a essa época imediatista, vivemos a eclipse da esperança e da aventura desafiante e enriquecedora da aposta, e consequentemente saem de cena os semeadores de futuros novos e criativos. Diante desse quadro, algumas perguntas são suscitadas para a nossa reflexão: quantos são os querem arriscar a própria vida na busca de horizontes inimagináveis? Quem quer apostar ainda hoje na construção de relacionamentos sólidos que implicam em compromisso e entrega? Quem são aqueles que semeiam contra o presente obscuro e se põe a cuidar da seara, na espera de uma colheita abundante de vidas que se renovam a cada dia, e por isso mesmo, capazes de inserirem uma novidade autêntica na sociedade da massificação e da cópia?

 

A vocação de ser semeador está presente no âmago de todo ser que percebe sua vida como dom, e assim, se põe a partilhar aquilo que um dia ele(a) recebeu como dádiva daquele que é Absoluto, o doador da vida. O pensador cristão Louis Evely dizia que “a pessoa é uma essência que possui muito mais futuro do que passado e presente”. Mas para ser semeador é preciso aprender a paciência, que por sinal está em falta hoje em dia, como também há que se domar o ímpeto do imediatismo que quer ver os resultados do investimento o mais rápido possível. Uma pessoa tem um futuro infinito, indeterminado. Toda a eternidade é necessária para o desenvolvimento pleno das energias e potencialidades que habitam em nossa humana existência, parafraseando Evely. Para ser semeador é preciso Crer! Crer na potencialidade da semente lançada na terra, crer na vida oculta e frágil que se deixa “quebrar a casca”, morrer, para dar vida ao inimaginável, ao pleno de novidade. Em outras palavras, o semeador é aquele que acredita diante do presente tão árido, que no primeiro momento parece ser tão hostil ao desenvolvimento da vida, mas ele sabe que existem ali os meios necessários para que as promessas de hoje, se realizem amanhã. Mas este, não semeia para o presente, mas semeia para o futuro. A semente lançada hoje precisa de tempo para ser gestada com cuidado, de modo que amanhã seus rebentos nasçam, e outros se disponham a recolherem as espigas que saciaram tantas fomes. E pensar que um dia ela foi uma frágil e pobre semente! É preciso ter os olhos educados para se acreditar no invisível que esconde um tesouro. Ser capaz de semear para o futuro significa cuidar do campo recebido e aguardar na expectativa alegre de um dia o mesmo campo se abrir em flor, anunciando a chegada do fruto novo. Todo semeador se percebe limitado, porque reconhece que embora ele semeie, regue, cuide da semente lançada no campo, existe um momento em que ele não pode fazer mais nada, não compete a ele dar o frescor da vida à semente, fazê-la crescer e dar frutos, pois tudo isso é dom! Só compete ao semeador à arte de semear e a arte do cuidado, e ele sabe que não semeará em vão!

 

“Todo semeador semeia contra o presente”, vocação estranha e louca essa do semeador, pensaram os apressados filhos da modernidade. Mas aqueles que são movidos pela esperança, que possuem vocação para o cuidado, que se percebem limitados, mas nem por isso, incapazes de fazer crescer o novo, semearam sempre, não para o presente, mas para o que a-divir, com a certeza de um vidente de searas do futuro.

 

Rodrigo Costa
Pré-noviço / Província do Rio

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