Hospitalidade: para além do habitual

 

 

 Com o enfraquecimento das grandes verdades políticas, religiosas e culturais, o ser humano pós-moderno encontra-se cada vez mais diante da pluralidade, terreno sobre o qual transcorrem seus dias. Até as certezas absolutas, antes invioláveis, passam pelo crivo de questionamentos muitas vezes ácidos e combativos. Nem é preciso elencar exemplos, já que, em regiões distintas dos saberes, qualquer um imediatamente reconhecerá tal cenário em sua lida cotidiana. As fronteiras culturais estão cada vez mais abertas, dando chances para grandes ou pequenos encontros de pessoas com histórias e valores diversos. Convive-se, em todos os momentos, com formas de pensamento, de sentido existencial que extrapolam um dia a dia organizado, trazendo complexas questões para uma convivência social pacífica. As redes virtuais expressam cenários muito mais próximos da transitoriedade do que de unidades bem estruturadas com pretensões de durabilidade. O que se afirma hoje, amanhã pode tornar-se ultrapassado, fazendo da velocidade uma constante no tecido das construções existenciais. Diante disso, há urgência em pensar sobre o princípio da hospitalidade. Até que ponto deve-se acolher o outro, principalmente o estrangeiro, de modo particular quando ele é sinal de divergência?

 

  Diversidade não quer dizer coisa negativa, desde que encarada como possibilidade de crescimento, de diálogo, de ir adiante. Na tradição cristã, Jesus disse de um “extra”, ao afirmar que “Se alguém o forçar a caminhar com ele um quilômetro, caminhe dois quilômetros” (Mt 5, 41). Ou seja, nesse caso a meta não pode ser o mínimo, o politicamente correto, todavia o máximo, a busca constante, o esforço incansável pelo encontro. De alguma forma, os cenários atuais interpelam o coração humano para um “extra diário”, extraordinário no que diz respeito à convivência, seja ela nos pequenos ciclos ou até mesmo nas relações internacionais. Sem a busca de um consenso, sem a sincera disponibilidade para o diálogo, o que seria uma chance, a riqueza da diversidade, pode se transformar num caos devastador. Então, a primeira postura necessariamente será de combate a toda forma de absolutismo. Ele, nas lidas hodiernas, é mais perigoso do que em outros tempos. Infelizmente, parece que seu retorno tem sido uma constante. Quantas expressões rígidas, por exemplo, em questões de fé, de política etc. Chega-se até mesmo a defesas de ideias infundados, com juízos arbitrários sem mínimos aprofundamentos. Como viver a verdade, de forma absoluta, sem levar em conta a caridade, a interdependência?

 

  Outro perigo, avesso do anterior, é o relativismo como forma disfarçada de não se comprometer com nada. Esse tipo de postura, que aparentemente funciona bem no papel, todavia quando as coisas atingem o coração, a alma, o drama da vida, não é sustentável. Bom antídoto contra a cômoda decisão de não tomar decisões, seria a construção da identidade, daquele núcleo que faz sentido para cada um, empenhando-se, com todas as forças, para que seja ela relacional. Bendita interatividade! O que seria extraordinário, em tal identidade? Imagine uma dança iluminada por apenas uma cor; agora reveja a cena colorida por outras incontáveis cores. Assim, a abertura em compartilhar com o outro as belezas e fraquezas do ser gente, torna mais saborosa a aventura existencial. Os relativistas são fracos de identidade. Ficam buscando fragmentos, quebrando galhos com doses paliativas de felicidade. Não arriscam a vida, na difícil tarefa de tecer história, fazendo apostas vitais. Passam o tempo como espectadores, não vivem. Tomar decisões, assumir posturas não significa descartar o outro, violentá-lo com palavras e gestos exclusivistas. Quanto mais consciente das próprias opções, mais sabedor de que elas são cheias de limites. E assim, mais possível acolher também a escolha limitada do irmão e andar com ele.

 

  De tudo, só não vale a violência que, numa cultura do descarte, pode chegar a graus sutis de crueldade, sem nem mesmo escutar o que o outro tem a dizer. Não seja assim entre vós! Mais do que acostumar-se a fórmulas prontas de convívio, a hospitalidade parece rasgar os céus atuais como luz que mostra possibilidades novas. Sem roteiro definido, espera de cada um, de cada raça, a formação de uma consciência amigável. E cada vez mais fica valendo a convicção, feito bandeira a ser desfraldada na entrada de cada casa, “Ou vivemos todos juntos como irmãos, ou morremos todos juntos como idiotas” (Martin Luther King).

Pe. Vicente Ferreira de Paula, C.Ss.R. Superior da Província do Rio

 Fonte: www.provinciadorio.org.br

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