Alma festeira!

Ócio é respiro de corpo e mente. Estação pra viajante solidário sem ser solitário; que espanta solidão infértil. Nascedouro de sentidos. Mesmo sozinha, alma festeira carrega companhias em sacrário existencial. E pausa melhor se dá depois de lida empenhada; quando se aperta mãos sem interesses de lucro. Não vale pra gente a toa, de viver sem compromisso, do tipo tudo serve. Esses não sabem fazer festa; são vazios de presente. Perderam o encanto por qualquer canto; não gostam de futuro, desdenham o passado.

 

Nem para os que se arvoram em senhorios, na tentativa de colonizar o outro. Desses o cansaço não sossega. Pra quem existe de labuta hospedeira, o descanso é sacramento. Horas sagradas, de silêncio e comunhão, de onde nascem preces e canções. Depois da luta, as pausas restauram. Elas evitam instrumentalização da vida. Inspiram motivações desacostumadas, fazedoras do destino. É na distração, amigo, que acordam janelas importantes no coração de gente.

 

Quem carrega bandeiras de amor, sabe que na sombra da noite também habita o ser; provocante parceiro de acenos variados. O divino não mora somente na luz, dos excessos de dizeres. Nem mesmo encerra-se no bem que já se deu. Palavra boa às vezes nasce de uma espera silenciosa. Peixe pescado em demora; por vezes na curva do rio. Espanto de susto longo. Alma festeira desinventa o hoje pra acordar o amanhã, sem excessos de explicações. O que ela mais quer é semear a esperança. Pena, de verdade, é noite sem sonho. Impede acontecências de mundo novo. Veja bem: sonho não aparece, assim, de imediato; acorda mais intenso no dormir calmo.

 

Nele ressurgem acenos de infinito pulsante; nascente da abissal fonte da vida; composição segura de alma criativa. É preciso apagar luzes, de tantas certezas, pra deixar as coisas aparecerem melhor. O inominável, quando esquecido, torna o homem desalmado. Espaço oportuno para outras maldades; esse rosto disforme de segredos tamanhos. Destino falido da pulsão sem herança. Melhor seria deixar vibrar o mistério que abre caminhos, desvelando marcas mais profundas do amor que cria. Sem sonhos, a poeira da estrada asfixia; o bem diminui; a maldade enrijece. 

 

Feliz esse afrouxar do tempo, de cordas afinadas em danças mais leves. No avesso da pressa, a paciência é que gera os encantos do viver. Sem a sombra da noite, sol seria cansativo; sufocante. Bendito o coração, portanto, que celebra sem precisão de ressaca. Excesso, companheiro, é o demais; o que os olhos vêem, mas não cabe no peito. Não se esqueça da cadência, exorcista de um fazer coisas sem sabor. Mesmo quem leva, na bagagem, grandes ideais transformativos, não pode ir muito longe sem repaginar-se. Sem sentir o frescor de não ser dono. Festejar, sem desvairadas confusões, é coisa de criatura. Oh, quão bom é ter consciência de criaturidade, não aceitando se vestir de juiz, do juízo final. Navegar pelas ondas da vida, convencidos do lugar criado, enaltece o Criador. Não precisa ostentação que polui o horizonte. Em raiz mais profunda, é o próprio divino, o festeiro de alma humana. 

 

Padre Vicente Ferreira, C.Ss.R., Superior Provincial

 

Fonte:  www.provinciadorio.org.br

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