Laços e Nós

 

O ser humano é relação, e isto significa que é um “ser-com-os-outros”. Difícil conceber a vida humana fora da dinâmica das diversas relações estabelecidas desde os primeiros dias de vida e que o acompanham por toda a existência, ainda que existam aqueles que se decidem por uma vida sem vínculos e isolada. O fato é que dependemos do outro para nascermos, crescermos, trabalharmos. Desde cedo nos relacionamos com os outros, com o mundo, com o mistério de Deus. A estrutura da realidade é alteridade.

 

A fé cristã nos ensina que Deus é uno e trino, portanto um mistério de relação. Deus se deixa conhecer se relacionando com o ser humano, e nos cria como singularidades que se relacionam. Nossas relações devem ser um reflexo deste mistério do qual tomamos parte. Nas tramas da existência vamos construindo e estabelecendo laços, que vez ou outra podem acabar se tornando nós também. A consequência de nossa participação neste mistério relacional é que não somos biologia apenas, mas também biografia. Sim, somos uma história, com biografia e originalidade próprias, que não se repetem jamais.

 

Os laços são uma bela imagem daquilo que significam nossas relações, como belamente escreve Mário Quintana: “Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está
dado o laço”. Para construí-los requer-se uma arte própria e cada um se realiza na medida em que torna real o potencial de construir laços de ternura, cuidado, afeto, diálogo, carinho, amor, fraternidade. Em outras palavras, respondemos e realizamos nossa vocação para construímos uma só família no Amor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 15, 2). Somos chamados a construir pontes que vão ao encontro do outro, a formar comunidades autenticamente fraternas, que rompem com a esterilidade dos nossos fechamentos e desagregações egoístas.

 

Mas, o contrário do laço é o nó, que são possíveis em nossas relações porque somos incertos, cheios de conflitos e inacabados. Nem sempre somos laços, muitas vezes somos nós que dificultam a vida daqueles que convivem conosco, minam os afetos, destroem a harmonia da convivência. Os nós surgem quando o desejo de posse, o ciúme a inveja e a comparação entram em cheio nos relacionamentos, recorramos à poesia de Quintana:

 

“Então o amor e a amizade são isso...

Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.

Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!”

 

 

E isso significa que as relações só são verdadeiras na medida em que nos deixam livres, e isso serve para todo tipo de vínculos, desde a amizade até o casamento. Se não encararmos os nós da existência com o outro, procurando desfazê-los para voltar ao sabor de mais vida que a convivência pode nos trazer, faremos a triste experiência do “inferno são os outros”, expressão do filósofo existencialista Sartre, esquecendo-nos de que também podemos ser inferno na vida dos demais.

 

 

No mistério da Alteridade, realizamos a vocação de sermos únicos e sós, mas ao mesmo tempo, unidos no amor com todas as outras pessoas. Nos laços e nós que estabeleço vida afora, descubro quem sou e entro em contato com o rosto de Deus que se revela a mim por meio dos outros. Prescindir dos laços em nossa existência humana é cair na armadilha da autossuficiência, abrir mão da possibilidade de crescer junto com o outro, e saber-me imperfeito, livre, fraterno.

 

Autor: Fr. Rodrigo Costa, C.Ss.R.

 

Fonte: www.provinciadorio.org.br

 

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