Evangelho e sociedade

Os tecidos sociais hodiernos trazem marcas profundas de uma época em mutações aceleradas. Tudo que se baseava nas organizações com características bem demarcadas e duradouras recebe, no tempo e espaço, os impulsos de forças disformes em busca de novas constituições. Tanto as pequenas comunidades quanto as grandes sentem o impacto cada vez mais forte de tais mudanças. Esse tempo que se chama hoje está muito mais favorável para criações do que para as acostumadas formas de existência. Espera-se, quem sabe, uma grande capacidade de resiliência para que caminhos novos ressurjam. E nesse caso, as posturas fechadas, autoritárias ou indiferentes contribuirão pouco. Veja bem! Se de um lado, o encurtamento das fronteiras culturais possibilitados pelas novas tecnologias é uma conquista democrática jamais vista; por outro, o insistente surgimento de pessoas e grupos fechados assusta principalmente no que demonstram de intransigência e violência. Seguramente, a raça humana atravessa uma grande encruzilhada: ou se aprofunda na construção de relações mais fraternas, ou será, aos poucos, dizimada pela prepotência de quem insiste no mando, na colonização do outro. Todavia, companheiro, para que a escolha seja honesta, não se pode pensar numa divisão clara, espontânea entre bons e maus. Essa história de eleger culturas como perfeitas e outras como encarnação das forças do mal já não faz sentido. Por quê? Tudo que é autenticamente humano carrega consigo potencialidades e também sombras, imperfeições, necessidade de transformação.

 

Uma proposta em favor da vida, da fraternidade e da paz, sem dúvida, é o Evangelho de Cristo, assumido pela Igreja como fonte límpida de redenção. Boa notícia que interpela o âmago da existência humana, em suas dores e alegrias, a abraçar sua condição de dávida divina. Sem encarar a vida como carregada de sentido, que vem de Deus e caminha pra Ele, desabrochando sempre como oblação, serviço, será difícil aprofundar as barreiras de elementos como egoísmo, preconceitos, descasos. É fácil aderir a campanhas passageiras contra a miséria, por exemplo; difícil mesmo é assumir um estilo existencial frugal, caridoso, moderado, sóbrio, de fato comprometido com a partilha. Tem muita gente com belas retóricas sobre o amor cristão e que, na verdade, ostentam exageros de todas as espécies. Nesse ponto, os cristãos devem aprofundar a consciência do belo presente que são para os dias atuais. Não podem cair na atitude daindiferença que atinge uma dimensão mundial, denunciada pelo Papa Francisco como globalização da indiferença. Da mesma forma, o documento do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes diz que: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Sim, os discípulos de Jesus não devem permanecer na indiferença diante de problemas que enfraquecem a dignidade da raça humana.

 

 

Então, não é possível ainda acreditar numa religião desencarnada, desligada, alheia aos impasses e conquistas de cada época. Muitos templos, eventos, realizados em nome da fé, não passam de banalização do mistério. Satisfazem apenas as carências momentâneas de sucesso ou de outras banalidades. Espetáculos de mau gosto, vazios de sentido. Enjaulam sujeitos em redomas infantis. Crer, caro amigo, é descortinar o véu que pode ofuscar a beleza da natureza, dos semelhantes, de tudo, fixando olhar e coração, no divino. Pisar no chão da história com firmeza de quem é responsável em não decepcionar a graça da capacidade de ser construtor do bem. É preciso exorcizar farisaísmos, aparências, ilusões infantis muitas vezes responsáveis pelas piores caricaturas de Deus. Conversão, por isso, é palavra de vida inteira; não é brincadeira! Nem tudo serve, nem tudo vale, mesmo que revestido de embalagens religiosas. Para o cristão, há um critério maior de discernimento: doar-se, para ser grande e inteiro. 

 

Pe. Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R. -  formador da Comunidade Vocacional Dom Muniz, membro da Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora, filósofo, teólogo, doutor e mestre em Ciência da Religião

 

Fonte: www. provinciadorio.org.br

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