Quaresma: uma experiência exodal

 

Os quarenta dias de preparação para a Páscoa, que se inicia com o gesto de imposição das cinzas e que termina com a Missa da Ceia do Senhor, e corresponde ao Tempo da Quaresma na vida da Igreja, são um convite à conversão, à coerência de vida, à reorientação dos ânimos e dos afetos em vista de mais vida. A Páscoa, celebração da Ressureição do Senhor é, por excelência, a festa da vida e da libertação. Para bem celebrá-la, faz-se necessário empreender um caminho que nos recorda a experiência do Êxodo do povo de Israel, que libertos da escravidão, rumam para terra prometida. Páscoa é passagem (pesah) da morte para vida, da opressão para a liberdade, das trevas para a luz. Esse tempo exige de nós um empenho ainda maior, pois somos convidados a reviver o Êxodo, como saída de nós mesmos, dos nossos comodismos e fechamentos, e reconhecer que existem realidades no chão de nossa existência humana que ainda não foram redimidas e que necessitam ser evangelizadas.

 

A experiência do Êxodo é o ato fundante da fé de Israel, é o reconhecimento de que Deus se faz próximo de seu povo e assume o seu destino, torna-se protagonista de sua história (Ex 19, 5-6). Mas é também um símbolo para todos os povos, que explorados e oprimidos, clamam por libertação e justiça. O Êxodo evoca a relação de fé entre Deus e o seu povo, que é chamado a renovar sua aliança e fortalecer a sua esperança, a escolher a vida e não a morte (Dt 30, 19). A caminhada do povo de Deus se realiza no deserto, em meio ao desamparo, a escassez, a provação diária. O êxodo recorda a nossa precariedade humana sujeita a tantas vicissitudes, mas que são superadas pela presença do Deus criador e providente. Assim, o deserto se torna o espaço ideal para a construção da resistência, o lugar da conversão e da purificação, que nos prepara para horizontes prenhes de esperança e libertação.

 

A Quaresma, semelhante à experiência exodal, nos desinstala, faz-nos um apelo para a saída, para uma situação nova, que nos permita amadurecer a vida de fé e reconhecer o Senhor, como aquele que vai a nossa frente, abrindo-nos caminhos de vida e de redenção. Em Jesus, encontramos a motivação maior para vivenciarmos bem este tempo, pois Ele também faz sua experiência de saída indo para o deserto, onde vive as tentações mais básicas da condição humana, mas as supera, convidando-nos a fazer o mesmo. Jesus é aquele que leva a plenitude à obra da libertação, nos libertando da nossa situação de pecado e nos reconciliando com o Pai definitivamente. Através dos ritos e celebrações, a Quaresma nos permite refazer a mesma peregrinação pascal de Jesus, vivendo em nossa própria carne, nossas próprias passagens: da escravidão dos vícios e seduções para a liberdade, da indiferença para a fraternidade, do comodismo para uma prática transformadora, do desespero para esperança, de tal modo que nossa vida seja um êxodo permanente que nos leva a uma Páscoa contínua.

 

Sabemos que vivemos em inúmeros desertos exteriores e interiores, mas falta-nos ainda a coragem de sair, principalmente de nós mesmos, em direção àqueles que se perderam pelo caminho e do qual somos responsáveis, para que estes experimentem também a face libertadora de Deus Pai, que nos chama a vida em plenitude. Como o povo do Êxodo, nos aproximemos e experimentemos mais uma vez, o Deus próximo que ouve o clamor do seu povo e vê os seus sofrimentos (Ex 3,7-9), e que completa sua obra de libertação, enviando-nos o seu Filho para ser um “novo Moisés”, que inicia o segundo e definitivo êxodo da humanidade, conduzindo-nos à Terra Prometida, da morte para a vida!

 

Fráter Rodrigo Costa - Província do Rio

 

Fonte: www.provinciadorio.org.br

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