O sentido das coisas

 

No império do mercado, galopante, objetos quase sempre têm apenas valor monetário. Sofrem, por isso, com o descarte, em lógicas sempre mais exploradoras. Se úteis, são importantes; desusados, viram lixo. Não contam histórias, não guardam segredos. Velozmente agonizam com a banalidade do uso e das trocas. Entretanto, outra relação é possível com a vasta rede dos instrumentos operados todos os dias. São eles apenas servidores de funções comerciais? Certamente para quem pensa cultura humana, sabe que afetos também existem em relação a tudo que é matéria porque ela é portadora de significações variadas. Guarda mistério de vida e morte; de grandezas impressionantes. Taça não é só taça pra quem precisa de água. Pedras dizem de obstáculos que surgem todos os dias.  E uma bandeira pode descortinar-se como símbolo de um povo, de uma raça. No horizonte existencial humano quando as coisas não ganham densidade simbólica, o viver se empobrece. 

 

Instrumentalidade não esgota o sentido dos objetos e, poeticamente, transformam-se em bens culturais. Matéria é parceira de segredos mais profundos, quando tocada não somente com mãos exploradoras, mas com o afeto de grupos e pessoas. No horizonte dos projetos humanos, elas ganham força sacramental porque são vivas, tem voz própria, falam uma linguagem capaz de desvelar aventuras de vastos mundos. Na sombra de cada bem cultural, dormem histórias, somente despertadas pela memória de quem agradece. Coisas falam e sua linguagem é arte, poesia, sacrário criador. Monumento tem poder de revelar traços daquilo que o próprio ser deixa gravado no tempo. Colher suas mensagens, por isso, pede tempo, estudo, cuidado. Infeliz de quem se tornou insensível diante de seus símbolos, de seus memoriais, de sua linguagem, dos significados mais profundos da materialidade do que surgiu na rede do fazer. Certamente caiu na banalidade, aniquilou-se no vazio da alma. Acomodou-se ao corriqueiro, ao uso rotineiro, ao precário poder utilitário.

 

Conservar peças, obras de arte, imagens, vestimentas, é forma boa de cultivar memória, de pastorear histórias. Acenos de passado inesgotável, mantido por lembrança fértil, de silêncio falante. Ganham poderes aos olhos do artista; preces diante do fiel. Despertam diálogos amigáveis porque são portadores de outros mundos. Por vezes pacificam; de repente desajustam. Obra de arte, então, é abertura de mundo novo; não descansa na parede ou no museu. Parece possuir voz própria. É sinal de que a vida não começa nem termina com quem a contempla, sabia? Se o olhar for ainda mais místico, coisas riem de gente orgulhosa, concentradas em si mesmas. Para esses, donos de verdades fechadas, arte tem o tamanho das suas explicações. Ah, mas para quem penetra, com respeito, no coração de todas as coisas, as palavras são pequenas pra um dizer definitivo. Preferem andar na penumbra, sem pressa de chegada. É que, às vezes, um simples objeto pode ser a convocação para uma longa e vital construção de sentido. 

 

Pe. Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R.,  Formador da Comunidade Vocacional Dom Muniz (Belo Horizonte)

 

                                                                                                             Foto: Museu de Arte do Rio de Janeiro - José Veloso

 

 

Fonte: www.provinciadorio.org.br

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