Um mundo para partilhar

 

Há, na Bíblia, uma pergunta de Jesus muito questionadora sobre o modo atual que estamos vivendo no mundo. Vendo a multidão que estava com fome, Jesus pergunta aos discípulos: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6, 5). Em seguida, o evangelista João diz que Jesus sabia o que fazer, revelando tratar-se de uma pergunta didática. Pois, além de não haver lugar para comprar pão, eles não teriam dinheiro suficiente para tal. Jesus, portanto, quer nos ajudar a perceber que o princípio de compra e venda, que está na base de nossas relações, não serve para saciar o ser humano de sua “fome”. O sistema capitalista não consegue saciar a todos, além de causar muito sofrimento e causar muitos danos ao meio ambiente. Então Jesus vai mostrar o caminho: Ele pede para chamar a criança que trazia consigo cinco pães e dois peixes, bendize a Deus e reparte. E aquilo que parecia ser pouco, saciou a todos e ainda sobrou. Nesse gesto, Jesus mostrou que o pão é insuficiente quando cada um quer saciar só a sua fome, mas que pode se multiplicar, se todos estiverem dispostos a colaborar.

 

O Papa Francisco, em sua encíclica “Laudato Si”, nos convoca para uma mudança no estilo de vida de produção e de consumo, já que numerosos estudos apontam que a responsabilidade maior do aquecimento global e da degradação do meio ambiente é resultado da atividade humana, por meio da industrialização desordenada1. Uma relação mais respeitosa com o meio ambiente é a proposta do papa: retomar uma relação de contemplação da natureza como nos ensina os salmos e uma admiração profunda pelas obras do criador. Se não o fazemos, agiremos como dominadores, consumistas e mero exploradores dos recursos naturais. Contemplar o mundo como revelação de Deus, tendo a nós mesmos como parte intimamente ligada a essa revelação, pode nos ajudar a renunciar a tendência de fazer da realidade um mero objeto de uso e de domínio2.

 

O meio ambiente está sendo degradado por meio de exploração irresponsável e já sofremos as consequências disso. O desejo de evolução é o que impulsiona o ser humano a querer avançar mais em sua industrialização, acumular bens, alcançar mais conforto. Porém, se o avanço tecnológico não estiver unido ao progresso social, regredimos no bem-estar3. Serve de exemplo a perda da qualidade de vida nas cidades grandes, onde estão mais concentrados os efeitos da industrialização: congestionamentos desordenados, ausência de espaços verdes, problemas de transporte, poluição do ar, poluição visual e acústica etc, provocando o caos urbano. A produção desordenada levada pela ganância está nos destruindo4.

 

O que o Papa Francisco propõe está em sintonia com o gesto de Jesus na partilha do pão. Quando bendiz ao Senhor pelo pão, Ele mostra que é preciso colocar-se diante de Deus, reconhecendo-O como origem da vida; isso significa que fazer a vontade do Pai é o que realmente nos sacia. Ao partilhar o pão, Jesus mostra que devemos ter em nós o desejo de saciar a multidão, ou seja, de viver de forma fraterna e de ter compromisso com a vida do próximo, principalmente com o bem-estar dos mais pobres e necessitados. Os dons que vêm de Deus, como o nosso planeta e tudo que existe nele, não são para comprar e vender, mas para partilhar.

 

1 Cf. Papa Francisco, Laudato Si - (LS) 23

2 Cf. LS 11

3 Cf. LS 4

4 Cf. LS 44

 

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.

Redentorista da Província do Rio e escritor do blog Sabor da fé

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