Um berço de violência

 

 

"Vós sois todos irmãos" (Mt 23,8)

 

O Brasil tem a maior porcentagem do número de assassinatos no mundo. Os dados revelam que cinco pessoas são mortas por arma de fogo a cada hora e que, no Brasil, ocorrem mais mortes por arma de fogo do que nas chacinas e nos atentados que acontecem em todo mundo. Existem hoje, no Congresso Nacional, parlamentares identificados com segmentos econômicos e sociais fortemente interessados em propostas potencialmente geradoras de violência. Defendem o uso de armas de fogo pela população civil, sustentando tratar-se de um direito natural, o direito de autopreservação. O Brasil também tem se mostrado perigoso para quem atua em favor dos direitos iguais para todos, pois são muitos os defensores dos direitos humanos que são assassinados em nosso país, e a ganância de alguns é a principal causa da morte dos ativistas.

 

Entre os vários motivos que causam a violência, não podemos ignorar a influência do contexto socioeconômico. Diferentemente da violência direta, que pode ser mais facilmente identificada, a violência cultural passa desapercebida. Ela se esconde em meio ao que se acredita ser legítimo, em formas de pensamento e de linguagem, por exemplo, a tendência de tratar alguns como se fossem naturalmente inferiores: negros, pobres, índios, mulheres, idosos, pessoas com diferentes orientações sexuais, imigrantes, migrantes.

 

A escolaridade baixa leva os indivíduos a conseguir empregos com pior remuneração e, consequentemente, com restrições econômicas. Em virtude dessas restrições, é comum a pessoa não conseguir se alimentar adequadamente, nem pagar pelo atendimento médico ou adquirir medicamentos; sua situação frágil leva a uma exclusão social, por isso são as maiores vítimas da violência cultural. Ao gerar exclusão e perpetuar desigualdades sociais, a economia produz violência e morte. A competitividade, fomentada culturalmente entre nós, converte-se facilmente em uma forma mal disfarçada de egoísmo e de indiferença frente ao outro.

Estudos apontam que 1% da humanidade detém 99% das riquezas e que são milhares os que vivem na miséria. A desigualdade gera violência, pois o sistema econômico pautado na produção da desigualdade produz a violência na medida em que favorece o bem-estar de uma pequena parcela, enquanto nega oportunidades de desenvolvimento a milhões de pessoas. A injustiça social traz consigo a morte.

 

Cerca de um bilhão de crianças vivem na pobreza no mundo. Segundo a ONU, a pobreza é causa da morte de pelo menos 17 mil crianças e jovens todos os dias. Tal condição de vida é uma das piores formas de violência que uma criança pode enfrentar, visto que tem impacto em sua vida da forma mais ampla possível, pois prejudica a saúde, diminui o tempo de vida e tem grande impacto no desenvolvimento desde o nascimento. A violência sofrida pelas crianças é mais prejudicial do que outros fatores de risco convencionais, como obesidade, hipertensão, uso excessivo de álcool; é uma dura realidade para a criança que sofre com a miséria todos os dias. A miséria poderia ser evitada se fossemos solidários, se fossemos verdadeiramente cristãos.

 

Em nosso país há mais assassinatos de pobres do que em qualquer outro país. São 60 mil pobres assassinados por ano. O Brasil abandonou os pobres e descendentes de escravos, construiu ativamente a miséria através dos brasileiros das classes superiores, fabricou uma classe de humilhados para explorá-los e persegue qualquer tentativa de mudar tal situação. Além disso, qualquer iniciativa política/social que envolva uma melhor distribuição de riqueza e de poder é boicotada.

O cristão não pode viver indiferente a esses fatos. É preciso combater a cultura da violência e resgatar o sentido da fraternidade dos povos e crescer a cada dia na prática da solidariedade e no sentimento de compaixão para construir o Reino pregado e iniciado por Jesus, transformando a realidade.

 

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R. - Formador da Comunidade Vocacional Santo Afonso (Juiz de Fora)

 

Fonte: sabordafe.com

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